domingo, 20 de maio de 2018

O BRASIL REALMENTE VOLTOU 20 ANOS EM 2

Quantos anos voltamos?

Esta semana o governo Temer, em mais um show de incompetência, lançou um slogan para comemorar dois anos de golpe: "O Brasil voltou, 20 anos em 2". Diante das piadas -- é só tirar a vírgula que a frase fica correta, ou "só 20 anos?" -- a campanha foi modificada. 
Publico aqui um breve artigo de Orlando Silva, líder do PCdoB na Câmara e deputado federal por SP, mostrando que o slogan era verdade mesmo. 

O Brasil realmente voltou. Bastaram dois anos sob o comando de Michel Temer para o país registrar recordes negativos e acabar com avanços em todas as áreas. Os graves retrocessos econômicos e sociais são as maiores e verdadeiras realizações do governo ilegítimo.
Nesta semana, o golpista celebrou o aniversário de sua gestão, divulgando mais uma vez resultados fantasiosos. Com 82,5% de reprovação popular apontada em pesquisas recentes, Temer se engana ao imaginar que conseguirá iludir os brasileiros. O sofrimento do povo é real e cotidiano, desde que se iniciou o desmonte nacional generalizado, desencadeado pelo golpe contra a então presidenta Dilma Rousseff em 2016.
Em meio a uma crise econômica e política sem precedentes, o presidente se mantém inerte diante da piora de todos os sinais da economia, da produção, do emprego e da renda no primeiro trimestre de 2018. Pelo contrário, o governo corta ou torna inoperante instrumentos de recuperação econômica. Um exemplo é o enfraquecimento dos bancos públicos. O fim da taxa de juros de longo prazo do BNDES inviabiliza o financiamento do desenvolvimento nacional.
A austeridade sem limites aniquila a ação estatal, impedindo a retomada do crescimento econômico. Os investimentos públicos despencam. Entre 2015 e 2017, o montante médio pago anualmente pelo governo federal chegava a R$ 57 bilhões. No ano passado, esse total caiu para apenas R$ 38 bilhões. Nas estatais, a queda foi ainda maior, baixando de R$ 123 bilhões investidos em 2013 para R$ 76 bilhões em 2016.
A precarização do mundo do trabalho é outra marca do governo que gera uma desesperança recorde. Somente em 2018, o desemprego cresceu 1,5 milhão. A destruição dos direitos trabalhistas leva ao aumento ainda maior do subemprego. Entre 2015 e 2017, registrou-se uma redução de 2,5 milhões no número de trabalhadores com carteira assinada. Nesse mesmo período, houve diminuição de 1,8 milhão no total de pessoas formalizadas com a Previdência Social.
O país também caminhou velozmente para trás na área social. No ano passado, a pobreza extrema aumentou em 1,5 milhão de brasileiros. Com o enxugamento dos programas sociais, voltou também o fantasma das mortes infantis. De acordo com dados consolidados pela Fundação Abrinq, a mortalidade infantil (entre crianças de 1 e 4 anos) cresceu 11% entre 2015 e 2016. Este foi o primeiro aumento desse indicador após 13 anos consecutivos de queda.
Neste breve balanço do governo golpista, fica claro que o Brasil enfrenta dois anos de falta de perspectiva e de arrocho social. É hora de nos levantarmos e bradarmos ainda mais alto: Fora Temer! As eleições de 2018 são a oportunidade da virada. Resistiremos até o fim e lutaremos para recuperar a esperança no futuro.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

MULHER DE FORMAS INACEITÁVEIS

Foi assim que um troll me chamou outro dia: "mulher de formas inaceitáveis". 
Eu acho que era um troll porque ele colocou um meme de carinha de vômito no final do tuíte, mas, dependendo de como se olha a frase, podia ser um elogio, né? De todo modo, eu adorei. Quase podia ser o título da minha autobiografia não autorizada.
Porque "inaceitável", tanto nas formas quanto no conteúdo, é o que eu sou pra eles. Eu represento tudo o que é inaceitável pra eles. E tenho o maior orgulho disso. Imagina ser aceitável pra um bando de marmanjo mimado que odeia todas as mulheres (até suas próprias mães) e não tem contato com nenhuma?! (Por isso que eu me preocupo sinceramente com as moças que têm a autoestima tão baixa que entram em fóruns mascus para tentar conseguir ser aprovadas por eles). 
"Inaceitável" pra eles é que uma mulher gorda, fora dos padrões de beleza, tenha namorado, respeito, admiração, amor dos outros, amor próprio. É tão difícil eles aceitarem isso que passaram anos espalhando teorias da conspiração de que meu marido não existia! Serião: eles preferiam acreditar que o maridão que aparece sorridente nas fotos comigo era um ator contratado ou photoshop. Essas ideias malucas eram mais aceitáveis que uma gorda ser casada com um bonitão por quase três décadas.
Eu sei que não deveria rir -- vai que é doença --, sei que tantos insultos deveriam me afetar de alguma forma (como disse uma feminista mais famosa do que eu, Jessica Valenti: "Você não pode ser chamada de puta dia sim, dia não, por dez anos, e isso não ter um impacto muito sério em sua psique"), mas não consigo. É que eu tenho muita segurança de onde estou e de onde esses caras que tanto me odeiam estão. Sei quem eu sou e sei quem são eles. 
Homens tão horrorosos por dentro e por fora que precisam se esconder nos porões da internet e não podem falar o que pensam em público, já que serão imediatamente afastados. Por que a opinião de gente tão infeliz e fracassada deveria me atingir de algum modo? Euzinha, uma mulher linda, poderosa, realizada, feliz, que tem a vida que quer?
Claro, sou uma velhinha de 50 anos, mas menina nenhuma precisa esperar tanto pra dar de ombros pro que misóginos acham ou deixam de achar de você. Repita desde já um mantra: dane-se o que eles pensam (em inglês é mais incisivo, creio eu: Fuck what they think). 
Inaceitável, pra eles, é que as opiniões dementes deles sobre qualquer coisa na vida sejam completamente desprezadas.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

REVISITANDO CLUBE DOS CINCO E OUTROS FILMES ADOLESCENTES DOS ANOS 8O NA ERA DO #METOO

Eu era adolescente na época de Clube dos Cinco, e o filme foi marcante pra mim. Eu já sabia que havia cenas machistas (a transformação da Allison nunca me caiu bem, e que tipo de vitória é pra Claire namorar um Bender?), mas isso não me impediu de gostar muito deste clássico -- ainda hoje.
Molly e Ally Sheedy em 2015,
festejando o 30o aniversário do filme
Então, quando vi que a maior estrela adolescente dos anos 80, Molly Ringwald, escreveu um excelente texto sobre os filmes de John Hughes para a revista New Yorker, pedi pro Vinícius traduzir. E o Vinicius, mais uma vez, atendeu o pedido (super obrigada)! Hoje Molly, além de atriz, é também escritora e cantora. Vive com sua família em NY.

As duas atrizes nos trinta anos
de Clube dos Cinco (1985)
No início deste ano, a Criterion Collection, que é “dedicada a reunir os maiores filmes do mundo inteiro”, lançou uma versão restaurada de Clube dos Cinco, um filme escrito e dirigido por John Hughes no qual eu participei, mais de três décadas atrás. Para essa edição, participei de uma entrevista sobre o filme, assim como outras pessoas próximas da produção. Eu não tenho o hábito de voltar a ver filmes que fiz, mas esta não foi a primeira vez que voltei a ver este: há alguns anos, assisti com minha filha, que tinha dez anos na época. Nós gravamos uma conversa sobre isso para o programa de rádio “This American Life”.
Molly Ringwald e sua
família
Eu serei a primeira a admitir que dez anos é jovem demais para assistir a Clube dos Cinco, um filme sobre cinco alunos do ensino médio que fazem amizade durante uma detenção em um sábado, com muitos palavrões, conversas sobre sexo e uma cena já famosa dos estudantes fumando maconha. Mas minha filha insistiu que as amigas dela já haviam visto, e ela disse que não queria assistir pela primeira vez na frente de outras pessoas. Um amigo diretor-roteirista me assegurou que crianças tendem a filtrar o que não entendem, e imaginei que seria melhor se eu estivesse lá para responder às perguntas desconfortáveis. Então cedi, pensando talvez que isso daria um momento doce e não convencional de ligação entre mãe e filha.
É uma experiência estranha, assistir a uma versão mais jovem e inocente de você mesma na tela. É ainda mais estranho -- até mesmo surreal -- assisti-la com sua filha quando ela está muito mais próxima em idade dessa versão do que você. Meu amigo estava certo: minha filha não parecia realmente perceber a maior parte das coisas sexuais, embora tenha se espantado audivelmente quando achou que eu havia mostrado minha calcinha.
Em um ponto do filme, o personagem bad boy, John Bender, se abaixa sob a mesa onde minha personagem, Claire, está sentada, para se esconder de um professor. Enquanto está lá, ele aproveita a oportunidade para espiar sob a saia de Claire e, embora os espectadores não vejam, fica implícito que ele a toca de forma inapropriada. Eu rapidamente pontuei para minha filha que a pessoa de calcinha não era realmente eu, embora esse esclarecimento parecesse irrelevante.
Continuamos assistindo e, apesar das minhas melhores intenções de contextualizar os trechos incômodos, não formulei sobre o que poderia ter acontecido embaixo da mesa. Ela não manifestou nenhuma curiosidade por algo sexual, então decidi seguir a deixa e discutir o que parecia ressoar mais com ela. Talvez eu tenha me acovardado.
Mas fiquei pensando sobre essa cena. Pensei nisso novamente no outono passado, depois que várias mulheres apresentaram acusações de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein, e o movimento #MeToo ganhou força. Se atitudes relativas à subjugação feminina são sistêmicas, e acredito que sejam, parece lógico que a arte que consumimos e sancionamos desempenhe algum papel no reforço dessas mesmas atitudes.
Eu fiz três filmes com John Hughes; quando foram lançados, causaram impacto cultural suficiente para me colocar na capa da revista Time e fazer com que Hughes fosse considerado um gênio. Sua reputação na crítica só cresceu desde sua morte, em 2009, aos 59 anos. Os filmes de Hughes passam constantemente na televisão e são até ensinados nas escolas. Ainda há muita coisa que amo neles, mas ultimamente tenho sentido a necessidade de examinar o papel que esses filmes desempenharam em nossa vida cultural: de onde vieram e o que podem significar agora.
Quando minha filha propôs assistirmos a Clube dos Cinco juntas, eu hesitei, sem saber como ela reagiria: se ela entenderia o filme ou mesmo se gostaria. Eu me preocupava que ela achasse alguns aspectos do filme problemáticos, mas não previ que no final das contas isso acabaria sendo mais problemático para mim.
Pode ser difícil lembrar como era escassa a arte para e sobre adolescentes antes que John Hughes chegasse. Os romances de jovens adultos ainda não haviam explodido como um gênero. Na tela, os grandes problemas que afetavam os adolescentes pareciam pertencer em grande parte ao mundo da ABC Afterschool Specials, que estreou em 1972 e ainda estava no ar quando atingi a maioridade, na década de 80. Todos os adolescentes que conheci preferiam morrer do que assisti-los. Os filmes tinham um sopro de castidade, o diálogo era obviamente escrito por adultos, a música era brega.
Representações de adolescentes em filmes eram ainda piores. Os atores escalados para papéis adolescentes tendiam a ser muito mais velhos que seus personagens -- eles tinham que ser, já que os filmes muito frequentemente eram apelativos.
Os filmes de terror adolescente que floresceram nos anos 1970 e 1980 traziam adolescentes sendo assassinados: se você fosse jovem, atraente e sexualmente ativa, suas chances de chegar ao fim eram basicamente nulas (uma alegoria parodiada, anos depois, pela franquia Pânico). 
As comédias adolescentes de sucesso do período, como O Clube dos Cafajestes e Porky’s, foram escritas por homens para garotos; as poucas mulheres neles eram ninfomaníacas ou mulheres mandonas e agressivas. (A robusta treinadora feminina em Porky’s chama-se Balbricker [nota: o nome Balbricker em inglês ganha um duplo sentido por conta da cacofonia produzida com ball-breaker, uma gíria pejorativa para se referir a mulheres dominantes]). Os garotos são pervertidos, tão unidimensionais quanto suas contrapartes femininas, mas com mais tempo de tela.
Em 1982, Picardias Estudantis, que teve a rara distinção de ser dirigido por uma mulher, Amy Heckerling, aproximou-se de uma representação autêntica da adolescência. Mas ainda abriu espaço para a fantasia masculina de um jovem, com a atriz Phoebe Cates andando de topless sob uma névoa fina de água suavemente pornô.
E então veio Hughes. Hughes, que cresceu em Michigan e Illinois, e começou a trabalhar, depois de abandonar a faculdade, escrevendo anúncios em Chicago. O trabalho o levava com frequência a Nova York, onde ele começou a frequentar os escritórios da revista de humor National Lampoon. Ele escreveu uma história chamada “Vacation '58” -- inspirada por suas próprias viagens familiares -- que lhe garantiu um emprego na revista e se tornou a base para o filme Férias Frustradas.
Outra história chamou a atenção da produtora Lauren Shuler Donner, que o encorajou a escrever o que se tornou Dona de Casa por Acaso (Mr. Mom). Aqueles filmes o ajudaram a conseguir um acordo com a Universal Studios. Clube dos Cinco seria sua estreia na direção; ele planejava filmar em Chicago com atores locais. 
Ele me disse mais tarde que, durante um fim de semana de 4 de julho, enquanto olhava fotos de atores considerados para o filme, ele encontrou a minha, e decidiu escrever outro filme em torno da personagem que ele imaginava ser aquela garota. Esse roteiro se tornou Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles), uma história sobre uma garota cuja família esquece seu 16o aniversário. O estúdio adorou o roteiro, talvez porque, pelo menos na forma, tivesse mais em comum com os sucessos comprovados -- Porky’s e outros -- do que com Clube dos Cinco, que basicamente parecia uma peça de teatro.
Uma reunião foi marcada, nós nos demos bem, e eu filmei Gatinhas e Gatões nos subúrbios de Chicago no verão depois que completei a nona série. 
Quando terminamos de filmar, e antes de começarmos a filmar Clube dos Cinco, John escreveu outro filme especialmente para mim, A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink), sobre uma garota da classe trabalhadora navegando pelos preconceitos sociais de sua opulenta escola secundária. 
O arco dramático do filme envolve ser convidada e depois desconvidada para o baile de formatura. Em resumo os filmes podem parecer superficiais -- uma garota perde seu par para uma dança, uma família esquece o aniversário de uma garota -- mas isso é parte do que os tornou únicos. Ninguém em Hollywood estava escrevendo sobre as minúcias do ensino médio, e certamente não do ponto de vista feminino. 
De acordo com um estudo, desde o final dos anos 1940, nos filmes de família com maior bilheteria, personagens femininas foram superadas em número pelos garotos de três para um -- e essa relação não melhorou. Que dois dos filmes de Hughes tivessem protagonistas femininas nos papéis principais e examinassem os sentimentos dessas jovens sobre as coisas bastante comuns que estavam acontecendo com elas, enquanto também conseguiam ter credibilidade instantânea que se traduzia em sucesso nas bilheterias, era uma anomalia que nunca foi realmente replicada. (Os poucos filmes de grande sucesso estrelados por mulheres jovens nos últimos anos foram em grande parte passados em futuros distópicos ou incluíam vampiros e lobisomens.)
Eu tive o que poderia ser chamada de relação simbiótica com John durante os dois primeiros filmes. Eu fui chamada de sua musa, o que eu acredito que era, por um pequeno tempo. Mas, mais do que isso, sentia que ele me ouvia -- embora certamente não o tempo todo. Ele saiu da escola de comédia da National Lampoon, e ainda havia um resíduo de grosseria que ficou, não importava o quanto eu protestasse. 
No roteiro de filmagem de Clube dos Cinco, havia uma cena em que uma atraente professora de ginástica nadava nua na piscina da escola enquanto o Sr. Vernon, o professor responsável pela detenção dos estudantes, a espiava. A cena não estava no primeiro rascunho que eu li, e influenciei John a cortá-la. Ele cortou, e embora eu tenha certeza de que a atriz que havia sido contratada para o papel ainda me culpe por frustrar seu momento, acho que o filme ficou melhor por isso. 
Em Gatinhas e Gatões, um personagem alternadamente chamado de Nerd e Ted Fazendeiro faz uma aposta com os amigos de que ele pode ficar com a minha personagem, Samantha; para provar, ele diz, vai ficar com a calcinha dela. Mais adiante no filme, depois de Samantha concordar em ajudar o Nerd, emprestando sua calcinha para ele, ela tem uma cena emotiva com seu pai. A cena originalmente terminaria com o pai perguntando: “Sam, o que diabos aconteceu com sua calcinha?”. 
Minha mãe se opôs. “Por que um pai saberia o que houve com a roupa de baixo de sua filha?”, ela perguntou. John se contorceu desconfortavelmente. Ele não quis dizer isso, ele disse -- era apenas uma piada, uma tirada. “Mas não é engraçado”, disse minha mãe. “É assustador”. A fala foi alterada para “Apenas lembre-se, Sam, você usa as calças na família”.
Minha mãe também se manifestou durante as filmagens daquela cena em Clube dos Cinco, quando eles contrataram uma mulher adulta para a foto da calcinha de Claire. Eles nem sequer me pediram para fazer isso -- não acho que era permitido por lei pedir isso a um menor -- mas até mesmo ter outra pessoa fingindo ser eu era embaraçoso para mim e perturbador para minha mãe, e ela disse isso. Essa cena permaneceu, no entanto. 
Além disso, como posso ver agora, Bender assedia sexualmente Claire durante todo o filme. Quando ele não está a sexualizando, ele desconta sua raiva nela com um desprezo cruel, chamando-a de “patética”, zombando-a como “mimada”. É a rejeição que inspira sua acidez. Claire age com desdém em relação a ele, e, em uma cena crucial perto do fim, ela prevê que na escola, na segunda-feira de manhã, mesmo que o grupo tenha criado uma conexão, as coisas vão retornar, socialmente, ao status quo. 
Final feliz? Pra Claire é que não deve ser
“Apenas enterre sua cabeça na areia e espere sua merda de formatura!”, Bender grita. Ele nunca pede desculpas por nada disso, mas, no entanto, ele fica com a garota no final.
Se estou soando excessivamente crítica, é apenas em retrospecto. Naquela época, eu estava apenas vagamente ciente do quão inapropriada era a escrita de John, dada a minha experiência limitada e o que era considerado normal na época. Eu estava com trinta e poucos anos antes de parar de considerar homens verbalmente abusivos mais interessantes do que os legais. 
Estou um pouco envergonhada em dizer que demorei ainda mais para compreender totalmente a cena no final de Gatinhas e Gatões, quando o galã dos sonhos, Jake, essencialmente troca sua namorada bêbada, Caroline, com o Nerd, para satisfazer os impulsos sexuais deste último, em troca da calcinha de Samantha. O Nerd tira fotos com Caroline para provar sua conquista; quando ela acorda de manhã com alguém que ela não conhece, ele pergunta se ela “gostou”. (Nenhum deles parece se lembrar muito). Caroline balança a cabeça em espanto e diz: “Sabe, tenho a estranha sensação de que sim”. Ela teve que ter uma sensação, em vez de um pensamento, porque os pensamentos são coisas que temos quando estamos conscientes, e ela não estava.
Pensando nessa cena, fiquei curiosa sobre como a atriz que interpretou Caroline, Haviland Morris, se sentiu em relação à personagem que ela representou. Então mandei um e-mail para ela. Nós não nos víamos ou nos falávamos desde que ela tinha 23 anos e eu 15. Nos encontramos para tomar café, e depois de termos colocado a conversa em dia, perguntei a ela sobre isso. Haviland, fiquei surpresa ao saber, não tem os mesmos problemas com a cena que eu tenho. 
Em sua opinião, Caroline tem alguma responsabilidade pelo que acontece, por conta de como ela fica bêbada na festa. “Não estou dizendo que é ok para depois ser estuprada ou ter sexo não consensual”, esclareceu Haviland. “Mas... não é uma rua de mão única. Eis uma garota que fica tão chapada que nem sabe o que está acontecendo.”
Houve uma ocasião em meus vinte e poucos anos em que bebi demais em uma festa e acabei em um quarto sentada na beira de uma cama com um produtor que eu não conhecia, desnorteada e tonta. Uma boa amiga, que havia me seguido, apareceu na porta alguns minutos depois e anunciou: “Hora de ir, Molly!”. Eu a segui, tentando não tropeçar, e passei o resto da noite extremamente doente e envergonhada -- e o resto da minha vida grata por ela ter estado lá, cuidando de mim, quando eu estava temporariamente incapaz de cuidar de mim mesma. Eu compartilhei a história com Haviland, e ela ouviu educadamente, assentindo.
Haviland, como eu, tem filhos, e por isso decidi enquadrar a questão hipoteticamente, de mãe para mãe, para ver se mudava o ponto de vista dela. 
Se uma de nossas filhas bebesse demais, e algo assim acontecesse com uma delas, ela diria: “Culpa sua, porque você bebeu demais”? Ela balançou a cabeça: “Não. Absolutamente, ele terminantemente permanece dentro da calça até que seja convidado por alguém disposto e consensualmente capaz de convidá-lo a pôr para fora”. Ainda assim, ela acrescentou: “Não vou colocar em preto e branco. Não é uma rua de mão única”.
Depois do nosso café, respondi a um e-mail de Haviland para agradecer-lhe por concordar em falar comigo. Mais tarde naquela noite, recebi outra nota. “Sabe,” -- escreveu ela -– “quanto mais penso nisso esta noite, estranhamente, menos desconfortável estou com Caroline. Jake estava com nojo dela e disse que poderia violá-la de 17 formas se quisesse porque ela estava tão acabada, mas ele não o fez. E então, foi Ted quem teve de perguntar se eles haviam feito sexo, o que certamente não demonstra comportamento responsável de qualquer das partes, mas também não significa realmente estupro. Por outro lado, ela foi basicamente trocada por uma calcinha... Ah, John Hughes.”
[Eu, Lola, pedi a Vinícius que não traduzisse os cinco parágrafos seguintes, em que Molly analisa os temas de escrita de Hughes na revista National Lampoon. Não achei relevante, porque não tem a ver com os filmes. E também porque o texto já está gigantesco. Quem quiser ler esses 5 parágrafos, convido a ler no original].
[Molly:] John acreditava em mim, e em meus dons como atriz, mais do que qualquer outra pessoa que conheci, e ele foi a primeira pessoa a me dizer que eu tinha que escrever e dirigir um dia. Ele também era fenomenal para guardar rancor, e poderia responder ao perceber uma rejeição da mesma forma que o personagem de Bender fazia em Clube dos Cinco
Mas eu não estou pensando sobre o homem agora, e sim nos filmes que ele deixou para trás. Filmes de que tenho orgulho de muitas maneiras. Filmes que, como sua escrita no começo, embora em menor escala, também poderiam ser considerados racistas, misóginos e, às vezes, homofóbicos.
As palavras “bicha” e “viado” são lançadas ao léu; o personagem Long Duk Dong, em Gatinhas e Gatões, é um estereótipo grotesco, como outros escritores detalharam de maneira muito mais eloquente do que eu.
E ainda assim, me disseram mais vezes do que eu poderia contar, tanto amigos quanto estranhos, incluindo pessoas da comunidade LGBT, que os filmes os “salvaram”. Ao deixar uma festa, não muito tempo atrás, fui abordada por Emil Wilbekin, um afro-americano gay, amigo de um amigo, que queria me dizer exatamente isso. Eu sorri e agradeci, mas o que eu queria dizer era “Por quê?” Mal há uma pessoa que não seja branca nos filmes, e nenhum personagem é abertamente gay. 
Cerca de uma semana depois da festa, pedi a meu amigo que me colocasse em contato com ele. Por e-mail, Wilbekin, um jornalista que criou uma organização chamada Native Son, dedicada ao empoderamento de homens negros gays, explanou sobre o que ele havia me dito enquanto eu saía da festa. Clube dos Cinco, ele explicou, salvou sua vida mostrando a ele, uma criança que cresceu em Cincinnati nos anos 80, “que havia outras pessoas como eu que estavam lutando com suas identidades, sentindo-se deslocadas nas construções sociais de ensino médio e lidando com os desafios dos ideais e pressões familiares”. 
Essas crianças também estavam “encontrando a si mesmas e sendo ‘outras’ em um ambiente heteronormativo branco, muito tradicional”. A falta de diversidade não o incomodou, acrescentou ele, “porque os personagens e as histórias eram tão lindamente humanos, perfeitamente imperfeitos e falhos”. Ele assistiu aos filmes no ensino médio e, embora ainda não tivesse se assumido, teve uma boa ideia de que era gay.
A Garota de Rosa Shocking apresenta um personagem, Duckie, que foi vagamente baseado no meu melhor amigo de 40 anos, Matthew Freeman. Somos amigos desde que eu tinha 10 anos, e ele trabalhou como assistente de produção no filme. Como Emil, ele é assumido agora, mas não era na época. (Essa é uma das razões pelas quais eu com frequência aponto, para consternação de alguns fãs e para o deleite dos outros, que Duckie é gay, embora não haja nada que indique isso no roteiro.) 
“Os personagens que John criou falam em se sentir invisíveis e estranhos", Matt me disse recentemente. Eles captam “como nos sentíamos como garotos gays ‘no armário’ que só podiam viver indiretamente através dos despertares sexuais dos outros, para que não fôssemos descobertos com a ameaça real de sermos condenados ao ostracismo ou atacados”.
Os filmes de John transmitem a raiva e o medo do isolamento que os adolescentes sentem, e ver que outros podem sentir o mesmo é um bálsamo para o trauma que adolescentes experimentam. Se isso é suficiente para compensar a impropriedade dos filmes, é difícil dizer -- até mesmo criticá-los me faz sentir como se eu estivesse despojando uma geração de algumas de suas memórias mais carinhosas, ou sendo ingrata, uma vez que que eles ajudaram a estabelecer minha carreira. E ainda assim abraçá-los inteiramente soa hipócrita. E ainda assim, e ainda assim...
Como devemos nos sentir em relação à arte que tanto amamos como nos opomos? E se estivermos na posição incomum de ter ajudado a criá-la? Apagar a história é um caminho perigoso quando se trata de arte -- a mudança é essencial, mas lembrar o passado também é, em toda a sua transgressão e barbárie, para que possamos medir corretamente o quão longe chegamos e também até que ponto ainda precisamos ir.
Enquanto pesquisava para esse texto, me deparei com um artigo publicado na revista Seventeen, em 1986, no qual entrevistei John. (Foi a única vez que o fiz.) Ele falou sobre os artistas que o inspiraram quando ele era mais novo -- Bob Dylan, John Lennon -- e como, assim que se “acomodaram” em sua arte, seguiram em frente. Salientei que ele já havia feito muitos filmes sobre o subúrbio, e perguntei se ele achava que deveria seguir em frente como seus ídolos. 
"Acho que é prudente que as pessoas se preocupem com as coisas que conhecem”, ele disse. E acrescentou: “Me sentiria extremamente desconfortável escrevendo sobre algo que não sei”.
Não tenho certeza se John estava realmente confortável ou satisfeito. Ele costumava me dizer que não achava que era um escritor de prosa bom o suficiente, e embora gostasse de escrever, ele notoriamente odiava revisar. Eu estava pronta para fazer mais um filme de Hughes, quando eu tinha 20 anos, mas senti que precisava ser reescrito. Hughes recusou, e o filme nunca foi feito, embora pudesse haver outras circunstâncias das quais eu não estava ciente.
Na entrevista, perguntei se ele achava que os adolescentes eram vistos de maneira diferente quando ele tinha essa idade. “Definitivamente”, ele disse. “Minha geração teve que ser levada a sério porque estávamos interrompendo coisas e queimando coisas. Fomos capazes de iniciar a mudança porque éramos em número grande. Nós éramos parte do Baby Boom, e quando nos mexemos, tudo se mexeu conosco. Mas agora há menos adolescentes e eles não são levados tão a sério quanto éramos. Você faz um filme adolescente, e os críticos dizem: 'Como você se atreve?' Simplesmente há uma falta geral de respeito pelos jovens agora.”
John queria que as pessoas levassem os adolescentes a sério, e as pessoas levaram. Os filmes ainda são ensinados nas escolas porque os bons professores querem que seus alunos saibam que o que eles sentem e dizem é importante; que se eles falarem, adultos e colegas vão ouvir. Acho que isso é, em última instância, o maior valor dos filmes e por que espero que eles irão durar. As discussões sobre eles mudarão, e elas deveriam. Cabe às próximas gerações descobrir como continuar essas conversas e torná-las suas -- continuar falando, nas escolas, no ativismo e na arte -- e confiar que nos importamos.