quarta-feira, 16 de agosto de 2017

AS MELHORES DICAS PRÁTICAS PARA QUEM VAI PRA CUBA

Conheci recentemente a professora Martha Daisson Hameister, do Departamento de História da UFPR, ao fazer parte da banca de uma orientanda dela. Quando ela viu que eu vou pra Cuba em dezembro, de férias, me deu as melhores dicas, realmente muito generosas.
Parece que todo mundo já foi pra Cuba menos eu, e todos que foram amaram e estão me presenteando com excelentes sugestões. Mas as da Martha foram as mais completas e práticas. Então deixo-as aqui com vocês. Vai que elas ajudam mais "mortadelas que obedecem aos inúmeros pedidos de 'Vai pra Cuba!'".

1) Varadero é caro e cheio de turistas. Mas há praias pequenas perto de Havana, como Santa Maria del Mar, que se pode ir pela manhã e voltar à tarde. Na época, ida e volta custava pouco mais de 10 reais. Deves levar a "farofa" -- sanduíches e principalmente água -- pois como em toda praia, tem o que comer, mas custa mais caro.
2) Para hospedagem, o melhor lugar é ficar em uma casa no bairro VEDADO [muitos brasileiros recomendam também Havana Velha]. Fica perto do Malecón [a orla de Havana], tem muitos serviços, caixas eletrônicos, padarias e vida noturna. 
Há bons cafés, bares e restaurantes. Há a sorveteria Copélia -- a favorita de Fidel -- embora eu não tenha encontrado outra... 
Uma amiga se hospedou com filha e sobrinha adolescentes nessa casa, mas nesse site há outras tantas. Vedado e toda Havana é muito segura. Passeia-se a qualquer hora do dia ou da noite sem maiores preocupações. Caixa eletrônico não tem porta, por exemplo. 
Eu fiquei numa casa de uma senhora de uns 70 anos que foi alfabetizadora do exército cubano. Alfabetizava soldados e civis como sua missão revolucionária. 15 dias de convívio com as pessoas em seu próprio meio dão mais conhecimento do que um curso inteiro sobre isso. Aliás, perguntei-lhe se não temia pela cooptação de jovens e ataques às conquistas cubanas após as negociações com EUA. Ela fez um discurso inflamado sobre a ciência que os cubanos, jovens e velhos, têm sobre os benefícios da revolução, da saúde para todos, da educação para todos e tanta outra coisa. Concluiu: "Y se no les gusta Cuba, que se vayan todos para allla".
3) Querendo ou não, se emagrece em Cuba. Nada de comida a la carte farta. O que há são excelentes PFs, arroz, feijão, carne de porco, frango ou ovo e alguma salada. Muito difícil comer carne de gado. São reservados basicamente para o leite, que é distribuído gratuitamente para crianças, gestantes, lactantes, idosos ou sob prescrição médica. Se és viciada em leite, leva leite em pó. Leite é CARÍSSIMO em Cuba. Algo como 40 reais uma latinha de leite Ninho. 
4) Toda água de Cuba é tratada. O problema são encanamentos velhos, muitas vezes de chumbo e as caixas d'água precárias. Portanto, é bom comprar água ou apanhá-la nas garrafinhas nas torneiras ao rés do chão -- em praças, jardins ou coisa assim -- a água que ainda não subiu para a caixa nem passou pelos canos de chumbo. Ainda assim, há casas que já trocaram os encanamentos e caixas d'água e, portanto, não há problema maior em consumi-la.
A água em Cuba custa 1 CUP meio litro (é cara, porque 1 CUP = mais ou menos 1 dólar). Mais barato se pegar garrafa grande. Ultimamente, tenho resolvido meus problemas com água em viagem -- como você, também bebo muita água e gasto muito em água. Imagina, um mínimo de 5 dólares/dia em água -- após essa viagem a Cuba. Comprei uma jarra-filtro de carvão ativado e levo junto. Coloco algumas peças de roupa -- camisetas, toalha ou o que seja, dentro e em torno dela para não quebrar. Essa aqui, ó. Comprei em uma loja da própria filtros Europa. Há refil para o filtro do carvão. 
Na primeira viagem ela já paga seu preço! Tem também a garrafinha filtro individual para os passeios.
5) Ao contrário do que dizem, há sim material de higiene, embora caros para turistas. Convém levar uns sabonetes a mais, pois é um bom presente para as pessoas encantadoras que irás conhecer. Não há mosquitos (como me apavoraram quando eu estava para viajar). Não há necessidade de repelentes.
6) LIVROS: há boas livrarias e sebos em Vedado. São MUITO baratos e vendidos pelo peso cubano e não pelo turístico. Saí com 2 sacolas de livros e gastei em torno de 30 reais no câmbio da época (2015).
7) Dinheiro em papel: melhor levar EUROS. O dólar tem um ágio de 10% ou 20% como retaliação ao embargo. Euro pega um câmbio melhor. 
Depois disso, é bom trocar uma quantia de CUCs -- dinheiro de turista -- por CUP -- dinheiro de cubanos para as pequenas despesas. Muito cuidado pois o design das notas é muito parecido. Minha observação para não entregar o dinheiro errado: CUC tem monumentos nas notas. CUP tem as personagens em "retrato". (Algo como CUC tem monumento a Che Guevara e CUP a efígie do Che Guevara). 
Tem casa de câmbio perto da sorveteria Copélia, perto do hotel Habana Libre. Tudo o que conseguires pagar em CUP vais pagar mais barato. Ah, reserva um troquinho para trazer as notas de 3 CUP para presentear amigos: ela tem a efígie do Che, é uma boa lembrancinha de viagem.
Esse conversorzinho aqui é de grande valia para ver qual a situação mais vantajosa, se dólar ou euros. Nós optamos por levar euros, que fomos comprando no Brasil aos poucos. Essa outra página apresenta por cidades no Brasil a cotação e quais as casas de câmbio que têm melhores taxas. Não adianta levar cartão de crédito para Cuba, que ainda não são muito aceitos.
8) Há pequenos comércios para cubanos e nesses se paga com peso cubano, a menos que te cobrem em CUC. Pão e outras coisas dessas são comprados de modo mais barato. Só tem que descobrir onde ficam. Frutas como manga, banana, abacate são vendidas na rua, por vendedores que passam de carrinho de mão. Alguns, ao verem que és turista, vão tentar aumentar o preço. Não paga. Lá há o "a peso", ou seja, uma unidade = 1 CUP. 
Ônibus urbanos são legais, meio aventura, são pagos em CUP ou se não tens dinheiro trocado, não precisa pagar. Não tem cobrador. Tem uma caixinha para botar o dinheiro -- muito pouco, baratíssimo (cerca de 1 CUP, ou 16 centavos de real) -- que funciona como um "pote da honra". O passageiro põe o dinheiro da passagem ou não põe. Num ônibus que peguei havia o aviso de que podes ir sem pagar se estás sem dinheiro, fica para a próxima o pagamento.
9) Se fazes uso de algum medicamento, leva junto. Não se compra medicamentos sem receita médica em Cuba, nem dipirona para a enxaqueca. O serviço de saúde é excelente, mas não abrange os turistas. Leve lenços de papel para emergências de ir ao banheiro quando estiveres em algum passeio. Embora nunca tenha entrado em um banheiro sem papel higiênico, isso pode acontecer. 
Também o papel higiênico não é tão suave... convém ter um rolinho na bagagem. 
Quando deixamos a casa em que estávamos, a dona recolheu tudo aquilo que não levaríamos: sabonete em uso, o resto do papel higiênico, sacolinhas de supermercado... aí, dei para ela a sobra do meu leite em pó e os xampus que dariam mais trabalho em trazer de volta do que deixar lá. Ficou muito agradecida.
10) Há muitos espetáculos na rua ou em teatros, baratos ou gratuitos, e os cubanos adoram informar sobre eles. 
11) Um pouco de cuidado em uma prática de exploração de turistas: um cubano se oferece para te levar a algum lugar, bar, restaurante, casa de espetáculos. Lá ele começa a pedir comida e bebida e a conta recai no turista.
12) A parte ruim: cuidado com os motoristas de táxi chamados "máquinas" apanhados na rua. É só preciso ficar atenta. Há uma quadrilha de taxistas especializados em roubo a turistas. Ou sequestro de bens. Quando fui para a rodoviária (incluímos Guantanamo no roteiro), o taxista me "ajudou" a tirar a bagagem. Eu alcançava a mochila e a bolsa de viagem e ele em vez de colocar na calçada ou entregar ao meu companheiro de viagem, colocou no banco da frente. Na mochila estavam meus documentos: passaporte, visto de entrada, etc. 
Precisei fazer um enorme de um drama, chorar e dizer que era professora e que o sonho da minha vida, conhecer Cuba, havia virado um pesadelo. Outros taxistas se "mobilizaram" e localizaram o táxi. Óbvio que pediram uma propina, pois haviam gasto gasolina, deixaram de fazer corridas etc. Resolvido o problema, uma outra turista/cubana que vive na França, começou a gritar que haviam sumido os presentes que levava para a família em Santiago. Roubaram garrafas de vinho, roupas e mais coisas que são custosas em Cuba, como chuveiro elétrico. 
13) Essa foi a única experiência ruim que tive e portanto, te alerto para ter cuidado. De resto, pegamos táxis compartilhados na rua, paga-se muito barato. 
Vai um número grande de pessoas ou o táxi para para apanhar mais gente. É bom, se conhece mais pessoas, conversa-se sobre a vida, o universo e tudo o mais. Os cubanos são muito cultos, pode-se conversar sobre a política brasileira ou cubana com um camelô ou com uma senhora parada na rua que cuida das crianças que estão jogando bola...
14) Incluí Guantánamo na viagem porque há anos me correspondo com um cubano que tem o mesmo sobrenome de minha mãe e que me achou na rede. Como ir a Cuba e não visitá-lo? Foi uma aventura e tanto. Viajar dentro de Cuba sai caro para turistas (há preços de passagens diferentes para turistas e para cubanos) e foi quando eu passei o perrengue do sequestro dos bens no terminal dos ônibus em Havana. 
A viagem foi de 3 dias e foi ÓTIMA. Conheci a sua família, passeamos por praias no sul da ilha, conheci uma cidade muito musical (toda Cuba é), com cafés que após o entardecer se tornam em uma praça de dança, na praça mesmo,  na frente do café, com rumba ao vivo e gente de todas as idades dançando. Músicos de excelente qualidade, pois o ensino da música também é gratuito em Cuba!
15) Ah, sobre assédio na rua, que é muito comum em Cuba: a sobrinha adolescente da minha amiga, jovem, creio que com 17 ou 18 anos, ruiva, lindinha, estava revoltada com os psiu, hermosa, guapa, etc de assediadores que por vezes a seguiam por uma quadra ou mais. Aí ensinei para ela a chave do mistério: dizer em alto e bom som "no me molestes". Cubanos chegam, jogam o xá-lá-lá sedutor ou assediador, mas respeitam o não. Não só esses assediadores, mas também os bêbados inconvenientes -- bebe-se e fuma-se muito em Cuba, terra do rum e dos tabacos. Resolve-se o problema com "no me molestes". 
16) A população e a polícia são desarmados. Pouquíssimos homicídios, em geral passionais ou briga de bêbados ou em família e com arma branca. São latinos, né? Fazem escândalos por dor de amor, brigam, gritam, etc. Mas não há muitos casos de homicídio. 
Policiais são policiais, mas são gentis (muito gentis perto dos que conhecemos por essas paragens). Também têm atenção especial com os turistas. Meu companheiro de viagem, gay, estava conversando com um rapaz na frente de uma boate. Os policiais chegaram, pediram documento de ambos e perguntaram se o rapaz lhe havia pedido dinheiro ou alguma outra coisa, ao que ele respondeu que não, que estava pedindo informações ao rapaz e que esse estava sendo muito gentil em responder-lhe. Os policiais foram embora, desejando boa estada em Havana e que procurasse a polícia caso tivesse qualquer problema. Foram um pouco mais duros com o rapaz cubano, mas não foram truculentos nem mal educados. 
17) Há bastante tolerância aos gays, há show de transformistas em casas noturnas. Esse amigo meu ficou pasmo. Teria um show nessa boate e ele entrou para ver. Um cantor lírico gay fez uma apresentação a capellla maravilhosa, de trechos de ópera de Mozart! Na boate tinha muitos namorados, fazendo namoro de sofá, mãozinha dada e olho no olho com paixão.
18) Cubanos são dados a pedir coisas. Não se trata de miséria ou exploração. Eles são generosos também e estão acostumados a se socorrerem mutuamente. Um dá um isqueiro, mas amanhã poderá estar pedindo parafusos ou pregos. É um hábito que não deve ser encarado como afronta e exploração, mas como uma cooperada forma de driblar a carência de certas coisas.
19) Ah, lembra da tua infância, quando apareceram as sacolinhas plásticas de supermercado? A mãe lavava e deixava secando para usar de novo? [Não lembro disso, Martha!] Pois bem, em Cuba fazem o mesmo. Não possuem indústria de produtos plásticos e se pode ver muitas sacolinhas secando nos varais. Leva sacola retornável para carregar o pão, a água e outras coisinhas dessas. 
Em geral, os produtos não são embrulhados ou são embrulhados em papel de armazém (lembra disso também, né?). [Ok, isso sim!]. Leva algumas sacolinhas plásticas para coisas que são molhadas ou podem vazar. 
Ao final da viagem, o que deixares lá, sacola retornável ou a plástica, será bem apreciado por quem as receber. 
20) Levei para o "primo" de Guantanamo uma sacolinha de evento que organizei, aquelas de algodão cru, com o material do evento dentro: bloquinho, caneta e o caderno de resumos. Ficou muitíssimo agradecido por tudo. Os materiais escolares o governo fornece, mas... ele não é mais estudante. Ele adotou a sacolinha como seu porta-coisas de todo o dia e o bloco e a caneta também foram muito bem recebidos. 
A gente vive há tanto bom tempo na abastança dos objetos de consumo e com dinheiro para comprá-los que esquece como era o tempo em que tudo pesava no orçamento. Cuba evoca essas lembranças de infância.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O TAROT LÊ O DESTINO DOS MASCUS

Vou contar uma história pra vocês.
Domingo retrasado fui pro Rio para uma reunião sobre assuntos acadêmicos. Foi uma viagem excelente em todos os sentidos, mas rápida. Fui num dia, voltei no outro. 
Fiquei na casa de um escritor e sua amiga. Uma outra amiga dele veio visitá-los. Conversamos durante horas. Foi muito, muito bacana. E ainda por cima havia uma cachorrinha fascinante que me fez morrer de saudades de ter cachorro (já faz dez anos que o Hamlet morreu). 
Mais pro final do papo, a conversa enveredou para os ataques e ameaças que recebo há anos dos mascus. O escritor, por ser também blogueiro, já conhecia o que eu passava. Mas as amigas dele, não. Ficaram horrorizadas. Não conseguiam acreditar que coisas assim acontecem -- que uma mulher e sua família possam ser alvejadas (com total impunidade) por ser feminista
Uma das amigas ficou especialmente perturbada. Pediu pra ver imagens dos criminosos. O escritor as encontrou facilmente na internet e mostrou a ela. 
Quando ela já estava quase saindo (estava esperando o táxi), ela me fez uma proposta com muita delicadeza. Perguntou se eu me incomodava se ela lesse o futuro dos mascus no tarô. 
Bom, eu sou ateia e não acredito nessas coisas. Nunca tinha chegado perto de um baralho de tarô (nem sei os termos usados). Mas essa amiga se mostrou tão querida que eu não tinha como dizer não.
Então ela me pediu para que eu mentalizasse um dos dois mascus que mais me atacam e tirasse nove cartas. Fiz isso. Não lembro os detalhes, mas ela disse que eu estava protegida, que havia um escudo em volta de mim. E que o mascu estava vivendo uma vida miserável e seria punido. Que as coisas estavam começando a acontecer e que ele seria preso. 
Em seguida ela me pediu para pensar no outro mascu e novamente tirar nove cartas. Sobre esse meliante ela foi ainda mais enfática: "Ele não passa de 2019". E explicou por que as cartas escolhidas previam um destino terrível pra ele. 
Agradeci a consulta, nos abraçamos, o táxi chegou. No dia seguinte tive a reunião e peguei o voo de volta pra Fortaleza. E, depois de chegar em casa, lá pela noite, dei uma passada rápida no chan de ódio para ver se os mascus estavam tramando alguma coisa (eu sempre me pergunto se é melhor saber ou não saber dos ataques que virão. Acho que é melhor saber pra não ser pega de surpresa, mas, por outro lado, gasto tempo demais passando os olhos pelas barbáries que esses fracassados escrevem, e a imensa maioria das ameaças não se concretiza -- ainda bem). 
Mas me surpreendi ao ler no chan o chefe da quadrilha contar que saiu uma condenação contra ele. Ele foi condenado a três anos e dois meses de prisão por racismo. Ele já havia sido condenado (foi o primeiro condenado por racismo na internet no Brasil), mas não foi preso porque alegou insanidade mental na época. 
Em 2012, quando ele e seu comparsa foram pegos pela Operação Intolerância, a alegação de insanidade não colou. Ambos passaram um ano e dois meses na cadeia (ó glória). E ele, ao sair, voltou a fazer exatamente tudo que fazia antes. Faz quatro anos que ele ataca, ameaça, cria sites de ódio, faz ameaças terroristas nos EUA usando um esquema de impressoras que ele aprendeu no site nazista Daily Stormer. Apesar das inúmeras denúncias e boletins de ocorrência em todo o Brasil, nada acontece. 
Plano do mascu: criar um site de ódio no nome do meu marido (de novo!)
Mas aí, praticamente no mesmo dia que a minha vidente particular lê o tarot e prevê a punição do mascu, sai uma sentença! A ação era de 2014, aberta pelo Ministério Público do DF, por causa de um blog que o cara tinha em 2008, um tal de "Diariotroll" (nunca tinha ouvido falar), em que ele xingava negros da mesma forma que faz hoje. 
Clique para ampliar (esses dois prints são de anteontem)
Claro que ele vai recorrer e seguir em liberdade (até que as outras ações resultem em prisão), mas só essa condenação já impede que ele fuja do país, como ele vem tentando fazer nos últimos meses -- porque ele sabe que cedo ou tarde (cedo, por favor!) voltará à cadeia. 
Continuo sem acreditar em tarô, mas achei uma coincidência incrível. E, enquanto não sair a prisão definitiva do mascu criminoso que, ao contrário do laudo, sabe exatamente o que está fazendo (problemas mentais todos os mascus têm; não é possível defender pedofilia, estupro corretivo, morte de mulheres e negros etc sem ser um completo mentecapto), eu vou comemorar esta sentença (leia o processo todo aqui). Que venham outras! 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

NAZISTAS MARCHAM NOS EUA

O que aconteceu em Charlottesville não pode ser visto como um incidente isolado e muito menos ser ignorado.
Esta foto poderosa é de outra marcha
da direita em #Charlottesville em julho
Charlottesville é uma pequena cidade na Virginia, uma cidade em que 80% da população frequenta a universidade local. Não tinha nada de muito importante até que (como outros municípios) os políticos votaram para remover uma estátua do general Robert E. Lee de um parque. Assim como a gente no Brasil, que ainda tem montes de escolas e avenidas nomeadas em homenagem a ditadores do período militar como Médici e Geisel, nos EUA ainda há pessoas que celebram confederados racistas que tentaram segregar o país em defesa da escravidão negra.
A remoção de um símbolo da supremacia branca fez com que nazistas, fascistas e nacionalistas organizassem uma manifestação na cidade, Unite the Right (Unir ou Una a Direita). O protesto começou na noite de sexta, 11 de agosto, com centenas de homens brancos (em sua imensa maioria, embora houvesse mulheres também) carregando tochas (marca registrada da Ku Klux Klan), 
socos ingleses, bastões de baseball e suásticas e gritando "Vocês não vão nos substituir" (em referência aos imigrantes, e também a uma teoria da conspiração comum entre reaças de que os "judeus internacionais" pretendem extinguir a raça branca), entre outras palavras de ordem contra negros, homossexuais, judeus e "antifas" (abreviação de anti-fascistas).
Entre os líderes fascistas presentes estavam Richard Spencer (criador do termo alt-right e que se tornou famoso ao comemorar a vitória de The Donald com a saudação "Hail Trump!", enquanto manifestantes levantavam o braço direito) e David Duke, da Ku Klux Klan -- os dois, e as organizações que eles representam, apoiaram Trump abertamente nas eleições presidenciais do ano passado, e Trump nunca repudiou o apoio. Pelo contrário, a alt-right está muito bem representada no governo do republicano laranja.
No sábado, uma situação já surreal e terrível conseguiu piorar. Os supremacistas brancos entraram em confronto com manifestantes contrários. O prefeito decretou estado de emergência. A polícia tentou dispersar a multidão e mandou todo mundo pra casa, dizendo que quem permanecesse na praça seria preso.
Poucas horas depois, perto dali, um outro grupo marchava pacificamente condenando o fascismo e o racismo. Um carro em alta velocidade furou o bloqueio e atropelou várias pessoas. A polícia parou o carro e capturou o motorista
Era James Alex Fields Jr, um rapaz de 20 anos, de Ohio, que foi para Charlottesville participar da marcha da direita. Sua ação feriu 19 pessoas e matou Heather Heyer, 32 anos, ativista de direitos humanos. Dois policiais também morreram com a queda de um helicóptero.
Trump declarou: "Condenamos nos maiores termos possíveis esta demonstração flagrante de ódio, intolerância e violência de muitos lados". Em seguida ele repetiu o "de muitos lados" para enfatizar. Quer dizer, para o presidente o ódio e violência não vieram dos fascistas, um dos quais passou um carro por cima de vinte pessoas, matando uma. Vieram de "muitos lados". 
Em outras palavras, ele pôs na mesma balança os nazistas e as pessoas que protestavam contra os nazistas. Os algozes e as vítimas. Dois termos ficaram de fora do seu discurso: supremacistas brancos e terrorismo doméstico. E Trump vem sendo muito criticado por isso, até entre republicanos. 
No entanto, teve gente que gostou da sua declaração ambígua. Os nazistas do site Daily Stormer, que publicaram sobre Charlottesville frases como "Temos um exército! Este é o começo de uma guerra!", comemoraram as palavras de Trump: "Seus comentários foram bons. Ele não nos atacou. Nada específico contra nós. Quando lhe pediram para que nos condenasse, ele só saiu da sala. Deus o abençoe".  
Esta foi a maior marcha fascista nos EUA em décadas. 
Não é à toa que a eleição de um presidente nacionalista (que é ídolo dessa gente e que dialogou com eles durante toda a campanha) incentive supremacistas a saírem às ruas abertamente, sem nem cobrirem os rostos com um capuz branco. Afinal, na lógica deles, se um candidato à líder da maior potência da história do mundo vociferou inúmeros preconceitos e não só não foi punido como foi eleito, por que eles não podem?
Isso abre algumas questões: até que ponto deve ir a liberdade de expressão? Liberdade de expressão vale também para discurso de ódio? (nos EUA, vale). Tudo bem um bando de fascistas malucos portarem rifles e fuzis durante um protesto?
Fascistas atacam um jovem negro
em Charlottesville
Nos Estados Unidos, não resta dúvida de que todos esses supremacistas, nacionalistas, fascistas, nazistas etc que participaram de uma manifestação com o nome nada sutil de Unir a Direita sejam de direita, ora (aliás, adoraria que alguém fosse ao protesto de Charlottesville e gritasse: "Vocês são de esquerda! Comunistas! Vão pra Cuba!" Só pra ver o que aconteceria). Alguns reaças de lá dizem que as ligações desses grupos fascistas com Trump não são evidentes. Outros alegam que manifestações fascistas mancham a imagem da direita (oh really?).
Mas aqui no Brasil é diferente. Estamos no país em que reaças creem piamente que nazismo foi um movimento de esquerda, afinal, nacional socialismo, né? O nome já diz tudo. Hitler era o maior comuna e fundou o PT da Alemanha, como afirmou uma jornalista famosa. Coube ao maior guru da extrema direita brazuca, Olavo de Carvalho, explicar Charlottesville em suas redes sociais. Ele tem "absoluta certeza" de que as "agitações 'de direita'" (observem as aspas) "foram pagas por algum George Soros para queimar a reputação dos conservadores".
Ou seja: nazismo é uma coisa tão de esquerda que quando homens brancos que se autointitulam nazistas fazem uma marcha para "unir a direita", isso só pode ser algo... planejado pela esquerda, ué. E ainda por cima patrocinado por um judeu como Soros. 
Pô, Olavão, se não fosse de direita da gema (não esses nazistas de esquerda!) poderia até marchar em Charlottesville (ele não mora na Virgínia?) pra gritar "Judeus não vão nos substituir!".
Entendo que defender ideais da direita é passar carimbo de vergonha, mas pô, se nem a direita assume que é direita, é sinal de que essa ideologia não tá com nada mesmo. 
Acontece que, apesar da vergonha, reaças como Olavão, Bolsonaro, Trump etc sabem muito bem de que lado estão os nazistas que marcharam em Charlottesville (assustando todo um país, aliás, todo um planeta) . Estão com eles. E nós somos seus inimigos. Por isso nos atacam o tempo todo. Seu sonho é nos atacar nas ruas também, fisicamente falando. 
Eu tenho lado. 
Eu me orgulho de não ter absolutamente nada em comum com supremacistas brancos. Não há nada em que eu e eles concordamos, não há pontos de convergência. Mas duvido muito que celebridades reaças possam dizer a mesma coisa.

UPDATE no mesmo dia: Ontem o site neonazista Daily Stormer festejou a morte da ativista Heather Heyer. Como ela tinha 32 anos, era gorda e não tinha filhos, ela não tinha valor na sociedade, segundo o site (mascus no Brasil pensam da mesma forma). A empresa que hospedava o site, GoDaddy (que é cúmplice por permitir lixo nazista) tirou o Daily Stormer do ar.
Pensamentos e atitudes assim não são exatamente populares. Ontem também, em Charlottesville, o reaça (Jason Kessler) que organizou a marcha Unir a Direita tentou dar uma entrevista coletiva. Veja o que aconteceu com ele.
É, não está fácil ser de direita neste momento nos EUA.